As dificuldades e vitórias dos médicos brasileiros em socorro ao povo do Haiti


O presidente da Associação Médica Brasileira, José Luiz Gomes do Amaral, relata as principais decisões que envolveram a partida do primeiro grupo de médicos, enfermeiros e técnicos, organizado pela entidade, para o atendimento às vítimas do terremoto no Haiti. Ele também conta, no texto a seguir, como está sendo o trabalho naquele país e o que deve ocorrer nos próximos dias.

Les Cayes, 19 de fevereiro de 2010

Prezados amigos,

Passo ao conhecimento de vocês um breve histórico do esforço desenvolvido pela Associação Médica Brasileira no atendimento às vítimas do recente terremoto no Haiti. Solicito, assim, vossa atenção a um assunto que, por certo, merece o pessoal envolvimento de todos nós. Trata-se de uma ação a ser compartilhada por todos os que entendemos que para solidariedade não há fronteiras.

O envolvimento da AMB nesta iniciativa iniciou-se já na quarta-feira seguinte ao terremoto, por meio do alistamento de médicos voluntários (que ontem eram 972, distribuídos nas várias especialidades), cadastramento de instituições de saúde (incluindo bancos de sangue e universidades), indústria farmacêutica e de equipamentos médico-hospitalares e outros.

Este cadastro tem sido disponibilizado aos Ministérios da Defesa e da Saúde do Brasil, desde 15 de janeiro, diariamente, nas duas semanas que sucederam o terremoto e, desde então, semanalmente. A iniciativa foi, em primeiro lugar, comunicada a Dra. Márcia Bassit (ministra interina da Saúde) e, com seu assentimento, ao Almirante José Luiz Amarante (Ministério da Defesa). O assunto foi, então, transferido ao capitão de Mar e Guerra José Alberto Cunha Couto e Miriam Medeiros (Gabinete de Segurança Institucional) e, a seguir, aos Drs. Clésio Mello de Castro e Guilherme Franco (Ministério da Saúde). Comuniquei-me em telefonema direto e em e-mail com o ministro da Saúde, Dr. José Gomes Temporão (28 de janeiro).

Enquanto isso, o Dr. Ricardo Affonso Ferreira, líder da ONG "Expedicionários da Saúde" (apoiada pela AMB e há seis anos voltada para cirurgia em populações indígenas na Amazônia) deslocou-se (aos 16 de janeiro) ao Haiti, via Santo Domingo, para buscar opções de utilização dos recursos (humanos e materiais) oferecidos à AMB.

Na ausência de definição por parte dos organismos supracitados para aplicação dos recursos disponibilizados à AMB e tendo encontrado alternativa para assistência médico-cirúrgica no Institut Brenda Strafford, hospital canadense, na cidade de Les Cayes, instalamos nessa instituição um serviço de ortopedia e anestesiologia.

O hospital Brenda Strafford não foi afetado pelo terremoto e, mediante acordo com a administração local, foi possível reorganizar duas salas cirúrgicas e duas enfermarias, montar um centro de esterilização e serviço de radiologia, sorte a possibilitar a realização de cirurgias (mantidas a um ritmo de 8 a 10 ao dia), incluindo as de médio e grande porte. Temos a nosso cuidado duas enfermarias, em um total de 40 leitos; assistimos um orfanato local (com dezenas de vítimas do terremoto) e os desabrigados hoje alojados em um campo de futebol próximo ao Institut Brenda Strafford.

O equipamento (incluindo fixadores e placas, autoclave e aparelho de radiografia portátil), instrumental, materiais e medicamentos foram doados por instituições e empresas brasileiras privadas ou obtidos junto às outras organizações que atuam no local. As equipes de saúde renovam-se a cada 15 dias, formadas por voluntários (não remunerados), ortopedistas, anestesiologistas, cirurgião, enfermeiros e técnicos de radiologia. Acompanha-nos um responsável pela logística. A equipe inicial foi renovada há cinco dias e o grupo atual compõe-se de quatro anestesiologistas, seis ortopedistas, um cirurgião vascular, quatro enfermeiros e um técnico de radiologia.

A equipe tem o apoio da AMB e é presentemente coordenada por mim, que ficarei no Haiti até o fim de fevereiro. Tem ainda apoio oficial das Sociedades Brasileira Anestesiologia (SBA), de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).

Estamos alojados em barracas instaladas no pátio do hospital, que nos oferece alguns quartos, instalações sanitárias e alimentação.

A assistência, no presente momento, está focalizada nas áreas de ortopedia, anestesia e enfermagem, porém existe a possibilidade de ampliá-la para outras especialidades médicas. A quase totalidade dos pacientes atendidos são vítimas do terremoto, provenientes de Port au Prince e outras localidades afetadas.

A população local é extremamente receptiva a brasileiros, o que reflete o excelente trabalho que nossos militares vêm desenvolvendo no Haiti.

Temos mantido contato frequente com a Associação Médica Haitiana (Dr. Claude Surena). Todas as ações desenvolvidas até o presente foram discutidas com a autoridade de saúde da província, Dr. Louissaint, o administrador do hospital Brenda Strafford e o Dr. Albert Leger (médico cirurgião haitiano com grande experiência e qualificação técnica, e rotariano muito bem articulado com ações assistenciais).

O embaixador do Brasil, Sr. Igor Kipman tem sido extremamente gentil, disponível e prestativo, o que nos dá segurança e estímulo para continuar. Sabê-lo conosco é como ter nosso País ao lado.

Hoje enviamos ao hospital La Lumière (120 leitos, quatro salas de operação e infraestrutura correspondente), na cidade de BonneFin (cerca de uma hora de Les Cayes), um anestesiologista e dois ortopedistas para colaborar com uma equipe americana que deve deixar o Haiti amanhã. É possível, portanto, que nos seja dado assumir também o serviço de ortopedia, anestesia e cirurgia daquele hospital.

Nosso problema maior, nesse momento, é o financiamento do transporte. Nos moldes atuais, o deslocamento dos voluntários é feito em vôos regulares TAM -COPA Airlines (Guarulhos-Lima, Panamá, Santo Domingo e vice-versa) ou COPA Airlines (Guarulhos-Panamá-Santo Domingo e vice-versa) e exige pernoites em Santo Domingo e Lima. Até o presente, essas companhias aéreas nos dispensaram do pagamento de excesso de bagagem (apenas no último deslocamento levamos 75 caixas, com peso adicional superior a 1000 kg). O transporte terrestre requer fretamento de ônibus de Santo Domingo a Les Cayes, viagem de aproximadamente 500 km que, por razões de segurança, não se pode realizar à noite e nos toma cerca de 12 horas. Hoje, temos notícia que será aberto o aeroporto de Port au Prince, sorte que outras alternativas poderão ser consideradas.

A terceira equipe, já organizada, deverá sair de São Paulo rumo a Santo Domingo, aos 25 de fevereiro e chegar aos 26 de fevereiro a Les Cayes, onde preparamos um dia de trabalho conjunto (transição) aos 27 de fevereiro. Nossa volta é prevista para 28 de fevereiro (saída de Les Cayes).

Assim sendo, espero ter resumido os principais aspectos do assunto em questão e agradeço imensamente seu envolvimento nessa iniciativa.

Atenciosamente,

Dr. José Luiz Gomes do Amaral

Presidente da Associação Médica Brasileira