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GESTÃO DE PESSOAS
Sem brincar no trabalho, profissionais não desenvolvem todo seu potencial
Artigo de Wellington Nogueira, fundador da ONG Doutores da Alegria, sobre a necessidade de aumentar a alegria de profissionais
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Wellington Nogueira


Em minha linha de atuação como besteirologista, aprendi que o pronto-atendimento de um hospital revela retratos precisos dos problemas sociais de seu entorno, desde a violência urbana até a falta de infraestrutura e educação.

Mas, nos últimos anos, esse cenário vem se ampliando e os pronto-atendimentos revelam mais um fator preocupante: os problemas de saúde oriundos de locais e relações doentes de trabalho, como stress, depressão, pânico e outros males decorrentes da somatização de emoções e sentimentos.

O homem trabalha desde a época em que saía para caçar refeições e encontrar abrigo. Ao longo dos tempos, esse escopo foi crescendo e mudando porque esse mesmo homem evoluiu e hoje quer mais do que simplesmente trabalhar para garantir suas necessidades básicas ou enriquecer. Ele quer associar o trabalho ao seu propósito de vida para construir um mundo melhor. Quando isso não acontece, abre-se o espaço para a frustração ou desmotivação.

E o preço é muito alto. Segundo o Instituto Gallup, 81% dos trabalhadores – globalmente - estão desmotivados, gerando um custo de US$ 3,1 trilhões para a sociedade. Dados alarmantes como esses demandam uma revisão urgente na maneira como está estruturado o campo do trabalho e nossa relação com ele.

Mas, por onde começar? Pela ousadia de tornar nossa relação com o trabalho mais criativa, desafiadora e divertida.

A experiência da besteirologia nos hospitais – locais de trabalho sérios e tensos – onde a brincadeira, a alegria e o jogo foram levados por palhaços profissionais treinados para esse fim, amealhou 23 anos de bons resultados, mostrando que esses mundos podem conviver muito bem, quando devidamente integrados.

Não estamos falando do riso alienante, com o objetivo de esquecer os problemas, mas da força da alegria que, segundo o filósofo Baruch Espinoza, reside em acessar nosso lado mais saudável, nossa potência, para que possamos olhar os desafios, enfrentá-los, vencê-los e celebrá-los!

Esse jeito de olhar a vida é uma escolha que pode ser feita a partir de experiências concretas, vivenciais e constantes, como num jogo. E abrir o espaço de trabalho para esse tipo de jogo é uma corajosa opção.

Afinal, quando é que exercitamos todas as qualidades que o trabalho pede, como senso de equipe, novas possibilidades, ousadia, engajamento? Quando estamos jogando cooperativamente. Poderíamos falar em "brincar como adultos".

A designer de jogos Jane McGonigal, em seu livro "A realidade em jogo – Por que os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo" – um best-seller,segundo o "The New York Times" - mostra, através de evidências científicas, que jogar é o oposto de se deprimir, porque o jogo nos motiva a evoluir, estimulando áreas de nosso cérebro associadas à alegria.

Tal fato se dá, ainda segundo a publicação, porque gostamos de ser estimulados a usar nosso potencial, pois isso é parte da natureza humana.

Enquanto o ambiente de trabalho não der espaço para essa evolução mais ampla, estaremos sempre negando nossa natureza e perdendo uma oportunidade tremenda de dar um novo significado a esta atividade que ocupa tantas horas de nossas vidas: trabalhar. À medida que crescemos, a escola ensina que por volta dos 8 ou 9 anos "acaba a brincadeira". Depois, o vestibular e o mercado de trabalho reforçam esse pensar.

Some-se a isso a origem da palavra trabalho, do latim, "tripalium", que significa instrumento de três pontas usado na lavoura para castigar com sofrimento. Por outro lado, em inglês, o verbo jogar,to play, tem três traduções: jogar jogos, atuar (como em uma peça) e brincar. Precisa dizer mais?

Recentemente, fui convidado a falar para jovens que ingressaram no mercado de trabalho e estavam saindo por decepção, porque querem alinhar o trabalho ao propósito de vida. As empresas, já muito estruturadas, têm dificuldades em se adaptar.

Em virtude disso, cada vez mais jovens estão deixando de ver essas grandes estruturas como opção de carreira e buscando correr riscos, para deixar um legado relevante para o mundo em que vivem. Portanto, já é passada a hora de rever essa estrutura rígida e só focada em lucros. Penso que as empresas, agora, devem se inspirar nesses jovens, porque eles têm o entusiasmo!

E aí, vamos virar esse jogo?


Fonte: uol.com.br - 23/08/14 - Wellington Nogueira, fundador da ONG Doutores da Alegria
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